Grupo criado após a reeleição terá até dezembro para revisar programas, identificar gargalos e estabelecer prioridades para 2027; saúde, equilíbrio fiscal e manutenção da capacidade de investimento aparecem entre os principais desafios

Reeleito para comandar Mato Grosso do Sul por mais quatro anos, o governador Eduardo Riedel (PP) já iniciou o planejamento do segundo mandato, que começa em janeiro de 2027. O trabalho ocorre em um cenário no qual o Estado tenta conciliar crescimento econômico e atração de novos investimentos com demandas persistentes em áreas como saúde e com mudanças que poderão afetar a arrecadação estadual nos próximos anos.

Um grupo de trabalho formado por oito integrantes foi criado para preparar a implementação do Plano de Governo 2027-2030. A equipe é coordenada pelo vice-governador José Carlos Barbosa, o Barbosinha, e deverá analisar programas em andamento, identificar gargalos, custos e riscos e apresentar propostas de prioridades para a próxima administração.

Segundo a edição desta quarta-feira (14) do jornal O Estado de Mato Grosso do Sul, a equipe terá até 4 de dezembro para entregar um diagnóstico que poderá subsidiar a revisão de metas, contratos de gestão e indicadores das secretarias, além de eventuais mudanças na estrutura administrativa do Estado.

Entre os pontos destacados como desafios para o próximo governo aparecem três frentes principais: reduzir as filas da saúde, preservar o equilíbrio das contas públicas e manter Mato Grosso do Sul competitivo na atração de empresas e investimentos.

Saúde segue como um dos grandes desafios

A saúde pública deve continuar no centro das atenções durante o segundo mandato.

O Governo do Estado mantém desde 2023 o programa MS Saúde – Mais Saúde, Menos Fila, criado para enfrentar a demanda reprimida por consultas, exames e cirurgias eletivas nos 79 municípios de Mato Grosso do Sul.

Até maio de 2025, o programa contabilizava mais de 87,5 mil atendimentos, sendo 51.353 exames e 36.131 cirurgias. A iniciativa passou por novas etapas e segue como uma das estratégias do Estado para descentralizar procedimentos e reduzir o tempo de espera dos pacientes.

Em 2026, o volume de recursos aplicado na área permanece expressivo. No primeiro quadrimestre deste ano, entre janeiro e abril, a Secretaria de Estado de Saúde informou investimento de R$ 783,1 milhões em ações e serviços públicos de saúde.

A prestação de contas também apontou como prioridades a regionalização dos atendimentos, ampliação da produção hospitalar e ambulatorial e fortalecimento dos hospitais do interior.

Essas políticas têm impacto direto sobre municípios como Maracaju, que dependem da rede regionalizada para diversos procedimentos de média e alta complexidade.

A redução das filas, entretanto, continua sendo apresentada como um desafio a ser enfrentado pela próxima gestão, mesmo diante dos programas já implantados.

Hospital Regional está entre os principais projetos

Outro projeto de grande porte para os próximos anos envolve o Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande.

O Estado iniciou uma parceria público-privada que prevê ampliação, modernização e renovação tecnológica da unidade.

O projeto prevê aproximadamente R$ 966 milhões em obras e modernização, além de investimentos operacionais estimados em R$ 7,3 bilhões ao longo de 30 anos. A previsão é que o hospital chegue a 577 leitos após a ampliação.

A estratégia faz parte de uma reorganização mais ampla da rede estadual, que inclui hospitais regionais, regulação integrada e descentralização dos atendimentos.

Contas públicas entram no radar

Ao mesmo tempo em que existe pressão para ampliar serviços públicos, o próximo governo também terá de observar o comportamento das receitas estaduais.

Segundo a reportagem de O Estado, Riedel afirmou que Mato Grosso do Sul conseguiu manter nos últimos anos uma capacidade de investimento equivalente a aproximadamente 12% a 15% da receita corrente líquida, mesmo em períodos em que a arrecadação cresceu abaixo da inflação.

Manter esse nível de investimento em infraestrutura, saúde, educação e demais políticas públicas será um dos desafios fiscais do próximo mandato.

Um dos pontos de atenção é a reforma tributária nacional.

Mato Grosso do Sul é um Estado produtor e, desde o início das discussões sobre a reforma, o governo estadual tem manifestado preocupação com eventuais perdas de arrecadação e com os efeitos das novas regras sobre a competitividade regional.

Riedel já defendeu mecanismos capazes de compensar possíveis perdas e preservar condições para que o Estado continue atraindo investimentos.

Incentivos fiscais também entram na discussão

Outra questão diretamente relacionada à competitividade é o futuro dos incentivos fiscais.

Em março deste ano, Mato Grosso do Sul renovou e ampliou 77 benefícios fiscais distribuídos entre 12 setores da economia, incluindo atividades industriais, comerciais, de serviços e produção rural. Segundo o Governo do Estado, a política busca manter competitividade, estimular investimentos e promover desenvolvimento regional.

A transição provocada pela reforma tributária exigirá que o Estado reveja, ao longo dos próximos anos, parte dos instrumentos utilizados para atrair empresas.

A própria administração estadual já reconheceu que Mato Grosso do Sul precisará encontrar formas de preservar sua competitividade diante da transformação do sistema tributário brasileiro.

Segundo mandato começa a ser montado

O grupo coordenado por Barbosinha terá justamente a tarefa de transformar essas questões em planejamento para o período entre 2027 e 2030.

Além de revisar programas existentes, a equipe deverá calcular impactos financeiros das propostas, identificar entraves operacionais e orçamentários e produzir uma matriz de metas e indicadores para o novo governo.

O relatório previsto para dezembro também poderá servir de base para mudanças na estrutura das secretarias e para a definição das prioridades administrativas a partir de janeiro.

Assim, o segundo mandato começa a ser planejado diante de um desafio que vai além de manter o crescimento econômico: transformar a expansão da economia estadual em melhoria perceptível dos serviços públicos, sem comprometer a capacidade financeira do Estado.

Para a população, a principal medida desse resultado estará justamente em áreas que fazem parte do cotidiano, como atendimento médico, hospitais, infraestrutura, educação e acesso aos serviços públicos.