Mensagens enviadas pelo WhatsApp durante a madrugada de 23 de setembro revelaram novos detalhes sobre a morte de duas jovens de 20 anos em Rochedo, município de Mato Grosso do Sul localizado a cerca de 83 quilômetros de Campo Grande. As conversas, anexadas ao inquérito da Polícia Civil, mostram orientações sobre a entrada dos envolvidos em uma residência, a execução das vítimas e a fuga após o crime.

As vítimas foram identificadas como Ellen Vitória Moreira da Cruz e Vitória Gabriely Souza Cordeiro, ambas de 20 anos. Elas foram mortas dentro de uma casa na Avenida Evangelina Vieira. Após os assassinatos, o imóvel foi incendiado.

Segundo reportagem publicada nesta terça-feira (13) pelo Campo Grande News, de autoria da jornalista Ana Paula Chuva, os registros foram extraídos do celular de Luiz Carlos Vieira Rodrigues, conhecido como “Bob Esponja”, de 22 anos, apontado como um dos responsáveis pela ação. Ele morreu posteriormente em confronto com a Polícia Militar.

Uma das mensagens, enviada às 5h41, orientava os envolvidos a matar as jovens sem provocar alarde. A comunicação foi feita por um contato identificado no aplicativo como “Estado KeNNYEL”, associado a um número com DDD 11, de São Paulo.

A Polícia Civil ainda trabalha para identificar quem realmente utilizava o perfil.

Mensagens mostram orientações durante a madrugada

De acordo com o material apresentado na investigação, a troca de mensagens começou por volta das 4h26, com orientações relacionadas à entrada dos suspeitos na residência.

Às 4h39, o interlocutor questionou se os envolvidos já haviam chegado ao imóvel.

Pouco antes das 5h40, novas mensagens passaram a tratar diretamente da execução das vítimas. Entre elas, havia orientações para que os participantes permanecessem calmos e impedissem que as jovens gritassem.

Às 5h41, o contato determinou que os envolvidos matassem as vítimas sem chamar atenção, trancassem a casa e deixassem o local.

O histórico também registra o envio, às 5h38, de uma fotografia do interior da residência, mostrando uma das jovens caída sobre colchões.

As conversas continuaram após os ataques. Por volta das 6h27, um dos participantes relatou preocupação com a presença de pessoas nas proximidades do imóvel.

Para os investigadores, as mensagens são relevantes porque podem ajudar a identificar a participação de pessoas que não estavam fisicamente na residência, mas que teriam transmitido instruções aos executores.

Suspeito afirma que ordens partiram de facção criminosa

Um dos investigados, Lucas Batista Ferreira, de 20 anos, foi preso no dia do crime.

Em depoimento ao delegado Valmir Messias Moura Fé, Lucas afirmou que a ordem para matar as jovens teria partido de lideranças do Primeiro Comando da Capital (PCC).

Segundo a versão apresentada por ele, Ellen era suspeita de manter ligação com o Comando Vermelho (CV), organização criminosa rival. Essa suspeita teria motivado a determinação para executar as vítimas.

A informação, entretanto, faz parte do depoimento do investigado e não comprova que Ellen integrasse qualquer organização criminosa.

Lucas também declarou que tentou impedir a morte de Vitória Gabriely, por entender que ela não tinha envolvimento com a suposta disputa entre facções.

Conforme seu relato, integrantes do grupo criminoso teriam ameaçado matá-lo caso ele se recusasse a participar da ação.

Durante o interrogatório, Lucas admitiu ter ajudado a imobilizar uma das vítimas, segurando seu pescoço e cobrindo sua boca enquanto Luiz Carlos participava das agressões.

Ele também afirmou ter manuseado uma faca encontrada na residência, mas alegou que isso ocorreu depois que as jovens já estavam caídas.

As declarações são elementos da investigação e precisam ser analisadas em conjunto com as demais provas.

Jovens teriam sido submetidas a julgamento por integrantes de facção

A perícia realizada no celular também identificou chamadas coletivas de WhatsApp durante a madrugada, incluindo registros às 2h42, 3h20 e 4h30.

Segundo o depoimento de Lucas, algumas dessas chamadas ocorreram enquanto as jovens ainda estavam vivas.

Durante as conversas, integrantes do grupo teriam questionado Ellen sobre sua suposta ligação com uma facção rival.

Esse procedimento é frequentemente chamado de “tribunal do crime”, expressão utilizada para descrever julgamentos e punições ilegais impostos por organizações criminosas.

Os investigadores identificaram diferentes contatos e participantes nas conversas, incluindo um grupo denominado “Disciplina Rochedo”.

A Polícia Civil busca esclarecer quem participou das ligações, quem transmitiu as ordens e qual foi o papel de cada pessoa no crime.

Como aconteceu o duplo homicídio

Conforme informações do inquérito divulgadas pelo Campo Grande News, as duas jovens estavam com amigos em um estúdio de tatuagem na noite de 22 de setembro.

Posteriormente, o grupo seguiu para uma residência na Avenida Evangelina Vieira, em Rochedo.

Por volta das 2h30, algumas pessoas deixaram o local.

A casa foi invadida aproximadamente às 3h por dois homens encapuzados, usando luvas e portando facas.

Um morador foi rendido e mantido sob ameaça, enquanto Ellen e Vitória Gabriely foram levadas para um quarto.

Segundo os depoimentos reunidos pela polícia, as jovens foram acusadas de envolvimento com uma organização criminosa rival e submetidas a agressões.

A investigação aponta que os autores utilizaram violência física e armas brancas. Há relatos de que as vítimas foram obrigadas a consumir bebida alcoólica misturada com entorpecentes.

Testemunhas também relataram pedidos de socorro durante o ataque.

As circunstâncias descritas nos depoimentos fazem parte do conjunto de provas analisado pela Polícia Civil.

Casa foi incendiada depois das mortes

Após os assassinatos, os responsáveis pela ação atearam fogo no imóvel.

Segundo o depoimento de Lucas, Luiz Carlos teria iniciado o incêndio com um isqueiro, enquanto outros envolvidos já deixavam a residência.

A suspeita investigada é de que o fogo tenha sido provocado para destruir vestígios e dificultar a identificação dos autores.

As chamas atingiram o quarto onde estavam as vítimas e precisaram ser combatidas com auxílio de um caminhão-pipa da prefeitura.

A investigação também apurou o desaparecimento de quatro celulares que estavam na residência, incluindo aparelhos pertencentes às vítimas e a uma testemunha.

Os telefones foram encontrados posteriormente, enterrados no quintal da casa da irmã de Luiz Carlos, onde ele teria se escondido antes do confronto com a Polícia Militar.

Polícia tenta identificar quem comandou o crime

Uma das principais questões ainda investigadas é a identidade da pessoa que utilizava o perfil “Estado KeNNYEL”, responsável pelo envio de mensagens com orientações aos envolvidos.

O número associado à conta possui DDD 11, mas isso não comprova que seu usuário estivesse em São Paulo no momento do crime.

A Polícia Civil também trabalha para identificar os demais participantes das chamadas e verificar a responsabilidade individual de cada investigado.

Até a publicação da reportagem que revelou as mensagens, não havia confirmação sobre a identidade de todos os responsáveis pelas ordens transmitidas à distância.

O caso permanece sob investigação.

Fonte principal: Campo Grande News, reportagem “Sem fazer escândalo: mensagens mostram orientações sobre execução de jovens”, publicada em 13 de outubro de 2026, por Ana Paula Chuva, com informações de depoimentos e registros do inquérito policial.