A história do locutor Zé Alfredo, de 65 anos, se confunde com boa parte da trajetória da RCMRádio Cidade Maracaju. Há 40 anos na emissora, ele é o locutor mais antigo da casa e acompanhou de perto a transformação do rádio, desde o tempo dos discos de vinil, fios e transmissões manuais até a era da internet e das plataformas digitais.

Zé Alfredo chegou a Maracaju em 1986, quando a rádio tinha apenas oito anos de existência. Antes disso, já havia trabalhado em emissoras de Ponta Porã, Eldorado, Dourados e Itaporã.

Mas sua história no rádio começou ainda muito jovem. Aos cerca de 14 anos, conseguiu uma oportunidade em uma emissora de Ponta Porã de uma forma incomum: começou varrendo o quintal da rádio.

“O dono falou que começou fazendo rádio varrendo o quintal. Eu falei que queria trabalhar e ele mandou pegar a vassoura. E eu fui varrer”, recorda.

A oportunidade, porém, não significou facilidade. Zé Alfredo precisou aprender rapidamente a trabalhar com os equipamentos da época. Operar toca-discos, trocar compactos, gravar comerciais em cartuchos e lidar com fitas fazia parte da rotina.

Em determinado momento, em sua primeira emissora, ele e outros iniciantes receberam um prazo de 15 dias para aprender o trabalho. Zé Alfredo conta que passou noites em claro estudando e praticando.

“Eu não dormia mais. Ficava a noite acordado. Tive que aprender na marra”, conta.

O esforço deu resultado. Ele permaneceu no rádio e passou a desempenhar diversas funções, entre elas operador, técnico, locutor e chefe de operadores.

Quando fazer rádio era um trabalho manual

Para Zé Alfredo, a principal diferença entre o rádio de antigamente e o atual está na tecnologia.

No início de sua carreira, praticamente tudo era feito manualmente. A programação dependia de discos de vinil, compactos, gravadores e cartuchos. O operador precisava manter pilhas de discos ao alcance das mãos e trocar rapidamente as músicas enquanto o locutor estava no ar.

“Hoje em dia tudo facilitado. Está tudo na base do botão. Antigamente era um processo impressionante”

afirma.

As transmissões externas também exigiam grande conhecimento técnico. Em coberturas esportivas, por exemplo, era necessário fazer conexões manualmente para colocar o repórter no ar.

Na RCM, os problemas de transmissão podiam significar um trabalho ainda mais difícil. O sinal era transmitido por meio de linhas telefônicas, e quando ocorria uma falha, Zé Alfredo e outros profissionais precisavam procurar fisicamente o ponto onde estava o problema.

“Pegava eu e um colega e saíamos procurando na linha telefônica onde estava o problema. Entrava naquele matagal, saía tudo molhado, subia no poste, cortava o fio e desencapava para ver se o som chegava ali”

relembra.

Hoje, segundo ele, a tecnologia tornou esse processo muito mais simples.

A rádio como ponto de encontro da comunidade

Além da evolução dos equipamentos, Zé Alfredo também presenciou uma época em que a relação entre rádio e comunidade era ainda mais direta.

Os microfones da emissora eram utilizados para pedidos de emprego, procura por pessoas, solicitações de medicamentos e campanhas de ajuda. Muitas vezes, o resultado vinha rapidamente.

“Você anunciava que uma pessoa precisava de emprego e dali a pouquinho já surtia efeito. Podia pedir qualquer coisa”

lembra.

Ele recorda, por exemplo, uma campanha realizada depois que uma residência na cidade foi destruída por um incêndio. A mobilização pelo rádio resultou na arrecadação de diversos itens para ajudar a família.

“Levamos geladeira, cama… fazia esse tipo de serviço”

conta.

A programação também aproximava os profissionais da população fora dos estúdios. Segundo Zé Alfredo, a rádio participava de eventos e mobilizava comerciantes e moradores para arrecadar produtos e realizar festas.

Uma vida dedicada ao rádio

Antes de chegar a Maracaju, Zé Alfredo trabalhou em diferentes cidades. Em Eldorado, onde permaneceu durante cinco anos, chegou a ser responsável por ensinar operadores.

Também trabalhou em emissoras de uma mesma rede em cidades como Dourados e Itaporã. Em determinado período, fazia um programa em Dourados das 4h às 6h30, e depois seguia para Itaporã, onde entrava novamente no ar das 8h às 11h30.

Em 1986, acabou sendo indicado para trabalhar em Maracaju.

Na RCM, apresentou diversos programas ao longo dos anos, entre eles Show da Manhã, Correio Sentimental, Clube dos Reis, Hora do Agricultor e Crepúsculo Sertanejo.

Outro capítulo curioso de sua trajetória aconteceu em Ponta Porã, onde trabalhou ao lado de um jovem que mais tarde se tornaria um dos nomes conhecidos da televisão brasileira: Celso Portiolli.

“Ele chegou e eu tinha um horário, mas não tinha vaga para ele. Aí o gerente falou que ele ia me ajudar. Ficamos os dois trabalhando juntos”

lembra.

O radialista de hoje

Quatro décadas depois de chegar à RCM , Zé Alfredo segue mantendo características do rádio que conheceu no início da carreira.

Ele diz gostar do estilo das antigas rádios AM, com valorização da informação, dos recados e da participação direta dos ouvintes.

“Eu estou no sistema de antigamente ainda. Gosto do estilo de AM. Tem alguma informação? Você coloca no meio. Tem um recado daqui, de lá. É gostoso, o pessoal participando de fora é muito bom.”

Atualmente, ele começa sua programação com uma oração e desenvolve temas relacionados à convivência, amizade, terceira idade e agricultura. Depois, atende aos pedidos dos ouvintes e seleciona músicas para a programação.

A diferença é que agora a preparação também passa pela internet.

Zé Alfredo afirma que pesquisa diariamente assuntos que podem ser abordados no programa e acompanha datas comemorativas e acontecimentos do cotidiano.

“Eu gosto de acompanhar o movimento que está acontecendo. Que música posso tocar no dia seguinte? Que música tocar depois da oração? De repente hoje é o Dia do Soldado, o Dia do Rádio… gosto de falar sempre sobre essas coisas.”

Mesmo após 40 anos na mesma emissora, ele diz que continua pesquisando e buscando novas informações.

“Pesquiso todos os  dias.”

“O rádio está mais vivo do que nunca”

Para Zé Alfredo, as transformações tecnológicas não significaram o enfraquecimento do rádio.

Ao contrário, ele acredita que a internet ampliou as possibilidades de alcance. Segundo ele, os dados de audiência mostram ouvintes da RCM em diferentes regiões do Brasil e até fora do país.

“O rádio não vai cair. Pode ter diminuído um pouco, mas eu acho que não. O rádio você ouve em qualquer lugar: na cozinha, perto do rio, viajando.”

A internet e as redes sociais, segundo ele, podem ter mudado os hábitos de consumo, mas não substituíram a presença do rádio no cotidiano das pessoas.

“Mais vivo do que nunca”

Depois de uma vida que começou no rádio ainda na adolescência, passando por diferentes cidades, equipamentos e formas de comunicação, Zé Alfredo continua diante do microfone na emissora onde está há quatro décadas.

Do tempo em que era preciso trocar discos manualmente e percorrer linhas telefônicas para descobrir uma falha de transmissão até a atualidade, em que pesquisa informações pela internet e fala com ouvintes de diferentes lugares do mundo, sua trajetória acompanha a própria transformação do rádio em Maracaju.