Em 2026, a RCM (Rádio Cidade Maracaju) completa 48 anos de história, acompanhando de perto as transformações do município e construindo, ao longo de quase cinco décadas, uma relação de proximidade com seus ouvintes e anunciantes. Desde os primeiros anos, quando a comunicação entre a cidade e a zona rural era muito mais limitada, a emissora exerceu um papel que ia muito além do entretenimento: era fonte de informação, serviço e conexão entre pessoas. Em uma época em que o acesso à informação era mais difícil, a rádio se tornou um importante elo entre a população e ajudou a aproximar pessoas que viviam distantes umas das outras.
Nesta matéria especial, a RCM revisita momentos importantes de sua trajetória, desde os primeiros dias da emissora até as transformações que marcaram sua história e ajudaram a consolidar sua relação com a comunidade.

O início
Por trás dessa trajetória está Mirian Sirlei da Veiga, 71, diretora da RCM, que acompanhou momentos decisivos da emissora e esteve à frente de um processo de reconstrução que ajudou a garantir a continuidade da rádio.
Quando assumiu a administração, encontrou uma realidade bastante diferente daquela vivida atualmente. Coube a ela enfrentar as dificuldades financeiras, reorganizar as contas e buscar alternativas para manter a emissora em funcionamento. A rádio havia sido criada por um grupo de sócios que colocou a emissora no ar, mas, pouco tempo depois, começaram a surgir dificuldades financeiras.
As dificuldades
A situação era tão delicada que a emissora chegou a perder a própria linha telefônica por falta de pagamento. Mirian então passou a levantar os contratos existentes, conversar com anunciantes e buscar novos parceiros para reorganizar as contas.
“Nós não tínhamos dinheiro nem para pagar a folha, não tínhamos dinheiro para nada”
conta.
Diante daquele cenário, ela decidiu enfrentar as dificuldades e buscar uma nova realidade para a empresa.
“Nós vamos ter que pôr dinheiro para ir mantendo ela e, daqui para frente, eu vou estabilizar a situação. Vamos vender”
relembra Mirian, ao recordar a conversa que teve com um dos sócios da rádio.
O início da ascensão
A partir daí, começou uma trajetória de mudanças estruturais e administrativas. A emissora reorganizou suas finanças, conquistou novos contratos, melhorou sua estrutura e ampliou sua potência e alcance. Mirian também buscou alternativas para garantir uma sede própria e, mais tarde, viabilizou novos investimentos para a estrutura atual da RCM.
A trajetória, segundo ela, foi construída passo a passo, em meio a dificuldades, decisões e persistência.
Mas, para Mirian, a força da RCM nunca esteve apenas nos equipamentos, na potência ou na estrutura física. O principal patrimônio construído pela emissora ao longo das décadas foi a relação com a comunidade.
“Eu sempre acreditei no rádio como veículo de comunicação”
afirma.
Para ela, o rádio permanece como um dos meios de comunicação mais próximos das pessoas justamente porque acompanha a vida cotidiana de quem está do outro lado do aparelho.
Essa relação de proximidade começou ainda nos primeiros anos da emissora, quando a rádio era utilizada para transmitir recados entre moradores da cidade e pessoas que viviam ou trabalhavam nas fazendas.
“A principal fonte de informação era através da rádio”
relembra Mirian.
Em uma época sem a facilidade das ligações telefônicas e da internet, a emissora era utilizada para transmitir avisos, localizar pessoas e levar informações para quem estava distante. Dessa forma, a RCM se tornou parte da rotina de uma população que dependia da comunicação pelo rádio para manter os vínculos entre a cidade e o campo.
O impacto na comunidade
Nos primeiros anos da RCM, quando o acesso ao telefone era limitado e a telefonia celular ainda não existia, a emissora exercia uma importante função de utilidade pública por meio do programa A Hora do Agricultor, transmitido diariamente ao meio-dia.
Mais do que uma atração radiofônica, o programa era um verdadeiro elo entre a cidade e a zona rural, utilizado para transmitir recados e avisos à população. Pelo rádio, moradores eram informados sobre horários de ônibus para distritos como Vista Alegre, combinavam pontos de encontro em porteiras de fazendas e recebiam avisos sobre o envio de encomendas e até medicamentos por viajantes.
“A gente trabalhava muito porque tinha muita gente que tinha migrado para maracaju, e não existia telefone. […] A principal fonte de informação era através da rádio.”
Em uma época em que muitas propriedades rurais não contavam com telefone, a emissora também era utilizada para localizar trabalhadores que estavam nos chamados “fundões das fazendas” e para comunicar notícias importantes, como o falecimento de familiares.
Para muitas pessoas que haviam migrado para a região de Maracaju, a rádio se tornou a principal fonte de informação e um dos poucos meios de manter contato com o que acontecia fora das propriedades rurais.

A conquista da FM
Em Julho de 2017, depois de muita luta, a RCM foi autorizada para migrar da frequência AM para a faixa FM, recebendo a mais alta classificação emitida pelo órgão que administra as rádios no país, a Categoria A.
Através dessa classificação veio também a autorização para operar na frequência que ouvimos atualmete, 104,3 mHz, e com uma potência de até 50.000 whatts. A título de curiosidade, apenas uma emissora de rádio em Mato Grosso do Sul recebeu igual classificação.
Para Mirian, essa mudança representa um dos momentos mais emocionantes de toda a trajetória da RCM:
“O momento mais emocionante, eu acho que foi quando eu assinei a transferência para a frequência modulada (FM), porque eu sofri. Uma turma foi muito cruel conosco. A rádio sempre trabalhou muito para a comunidade. E essas pessoas começaram a espalhar pelo comércio que nós tínhamos acabado, que nós não valíamos mais nada. Muito triste isso aí. Foi horrível.”
A mudança para a FM representou, para Mirian, não apenas uma evolução tecnológica, mas também a conquista de uma nova etapa para a emissora depois de anos de trabalho e dificuldades.
É essa trajetória, marcada por desafios, transformações e histórias que se confundem com a própria história de Maracaju, que a RCM celebra ao completar 48 anos.

Uma rádio que se reinventou
Ao longo de quase cinco décadas, a RCM também acompanhou de perto a evolução tecnológica do setor. Para Mirian, a modernização mudou a forma de produzir e transmitir informação, tornando o rádio ainda mais ágil e ampliando suas possibilidades de comunicação.
“O rádio ficou ágil, ele sempre foi imediato, mas hoje você faz tudo em tempo real, traz notícias do outro lado do mundo por causa da internet. […] Aí nós partimos para transformar, e daí melhoramos a nossa qualidade. Hoje é rádio e televisão, vamos dizer, né?”
afirma.
Na avaliação de Mirian, a transformação do rádio foi ainda mais ampla com a chegada das novas tecnologias.
“Observando assim o histórico, eu vejo que o rádio se inovou muito mais até que a televisão”
destaca.
A mudança também pode ser percebida na forma como as informações são produzidas. Mirian lembra que, no passado, as notícias eram preparadas de maneira muito mais manual:
“Eu fui do tempo que a notícia era batida na máquina”
relembra.
Hoje, segundo ela, a internet ampliou as possibilidades de produção e transmissão de conteúdo, permitindo parcerias com profissionais de diferentes lugares e mostrando como o rádio conseguiu se adaptar às novas tecnologias sem perder sua proximidade com o público.

Uma história que continua em movimento
Aos 39 anos, Dafne da Veiga Ribas, gerente comercial da RCM, carrega também a responsabilidade de dar continuidade ao legado construído por sua mãe, Mirian. Para ela, fazer parte de uma emissora que chega aos 48 anos é motivo de orgulho, mas também representa um compromisso com a história construída ao longo das décadas.
“Para mim, dar continuidade ao legado que minha mãe construiu ao longo desses anos é uma honra. Sinto um profundo respeito, sei da responsabilidade e tenho consciência de que cada geração tem seu papel na construção e permanência da empresa”
afirma Dafne.
A adaptação às mudanças do setor também trouxe desafios. Dafne conta que, no início, precisou aprender sobre uma área com a qual não tinha familiaridade, além de acompanhar as transformações provocadas pelas novas tecnologias.
“No início tive algumas dificuldades, principalmente por não ser da área de comunicação e por se tratar de um setor com uma legislação muito específica. Além disso, a última década trouxe mudanças profundas na forma e nos meios de comunicação”
relata.
Segundo ela, a solidez construída pela emissora ao longo dos anos deu segurança para enfrentar esse processo sem abandonar os princípios que marcaram sua trajetória.
“Sempre com respeito ao que já foi feito, para adaptar e incorporar as mudanças que a atualidade exige.”
Credibilidade e evolução
Entre os principais ensinamentos recebidos da mãe, Dafne destaca a importância do compromisso e da responsabilidade com a comunicação.
“Aprendi com minha mãe que o trabalho deve ser sempre conduzido com compromisso e responsabilidade, especialmente quando se tem o papel de comunicar”
afirma.
Para ela, a credibilidade é resultado de um trabalho construído diariamente.
“Entendi que a credibilidade se constrói diariamente, com respeito aos fatos e principalmente ao público.”
A própria identidade atual da emissora representa esse processo de transformação. Hoje, a Rádio Cidade Maracaju também é conhecida como RCM, uma marca que, segundo Dafne, traduz a característica de uma rádio que está sempre em movimento.
“A RCM representa esse movimento constante da rádio. Assim como a comunicação mudou, os textos ficaram mais objetivos e a informação chega de forma cada vez mais rápida e dinâmica, buscamos acompanhar esse novo ritmo, adaptando nossa identidade e nossas formas de comunicar, sempre sem perder a nossa essência.”
Uma relação que mudou de canal, não de essência
Ao longo dos últimos 10 anos na emissora, Dafne acompanhou de perto a transformação na forma como o público se comunica com a rádio. As cartas e mensagens de SMS, comuns no passado, deram espaço ao WhatsApp, aplicativos e redes sociais.
“Acredito que o comportamento do público, na essência, não mudou: as pessoas continuam querendo ser ouvidas, valorizadas e atendidas”
explica. Para ela, a grande transformação ocorreu nos meios utilizados para essa interação.
“No início recebíamos cartas, tenho até arquivadas, e também mensagens de SMS. Hoje os principais meios são o WhatsApp, aplicativo e redes sociais. Para mim, o que acontece atualmente nas redes sociais nada mais é do que a evolução daquela mesma interação que o rádio sempre teve com seu público.”

Os desafios do rádio atualmente
Entre os principais desafios para manter uma emissora está, segundo Dafne, mostrar aos anunciantes e às agências o valor e a força do rádio.
“Hoje, um dos principais desafios é mostrar aos anunciantes e às agências o valor e a força do rádio, apresentando dados que comprovam seu alcance, credibilidade e capacidade de gerar resultados”
afirma.
Ela também destaca a importância dos dados de audiência medidos por institutos independentes.
“Os dados de audiência e credibilidade do rádio são medidos por institutos independentes, enquanto muitas plataformas digitais utilizam seus próprios dados e suas métricas.”
O rádio continua presente
Mesmo diante do surgimento de novas mídias, Dafne acredita que o rádio continua relevante justamente por sua capacidade de acompanhar as transformações.
“O rádio tem mais de 100 anos e sempre soube acompanhar as transformações. A internet, que muitos dizem que é a nova mídia, já tem mais de 30 anos e só contribuiu para fortalecer o rádio, especialmente para aqueles que não tiveram resistência às mudanças.”
Para ela, a essência do meio continua sendo a credibilidade, a qualidade da informação e a interação.
“O rádio continuará tendo como essência a credibilidade, a qualidade da informação e, principalmente, a interação.”
Outra característica apontada por Dafne é a capacidade de acompanhar o público durante a rotina.
“Ele acompanha as pessoas enquanto elas realizam suas atividades: dirigindo, lavando roupa, tirando leite, trabalhando na plantadeira ou na colheitadeira. Ele está presente sem exigir que a pessoa pare tudo para consumi-lo.”
Um futuro cada vez mais conectado
Para Dafne, o futuro do rádio está na integração entre a transmissão tradicional e as novas tecnologias.
“Atualmente o futuro do rádio está no rádio híbrido, que já é uma realidade em estados como MG e RJ, por exemplo. Ele une a transmissão tradicional pelo sinal aberto à transmissão online.”
Na RCM, a perspectiva é continuar avançando sem perder a proximidade com o público.
“Para a RCM, o futuro é continuar evoluindo, utilizando as tecnologias a nosso favor e, principalmente, manter a nossa proximidade com o público.”
E, em um cenário em que a atenção das pessoas é cada vez mais disputada, Dafne resume o desafio da comunicação atual:
“O que é mais importante e disputado na atualidade é a atenção, atenção das pessoas. Não basta estar em todas as plataformas, não adianta ter 100 grupos de WhatsApp se você não estiver realmente prestando atenção.”
Aos 48 anos, a RCM segue, assim, entre a tradição e a transformação, levando para o futuro uma característica que acompanha sua história: a capacidade de evoluir sem perder sua essência.
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