Melvyn Levitsky afirma que visita presidencial vai contra histórico do Brasil de defesa da lei internacional

RAFEL BALADO
FOLHA DE S. PAULO
WASHINGTON – A visita do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, à Rússia, na segunda-feira (14), dá um sinal errado ao mundo: o de que usar ameaças militares para resolver disputas é um caminho tolerável. A avaliação é de Melvyn Levitsky, ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil (1994-1998) e que também trabalhou na embaixada americana em Moscou.
“A viagem não faz sentido nos termos da posição do Brasil sobre a lei internacional. O país tem uma reputação de ser muito cuidadoso sobre o respeito às regras internacionais. É um membro muito ativo da ONU, e a Carta da ONU proíbe tentar resolver uma disputa ou impor sua vontade a outro país por meios militares”, afirma.
Levitsky, 83, atuou como diplomata dos EUA por 35 anos. Atualmente, é professor de política internacional na Universidade de Michigan. Em conversa com a Folha, ele também comentou sobre as motivações de Putin para pressionar a Ucrânia e a aproximação da Rússia com a China.
A viagem não faz sentido nos termos da posição do Brasil sobre a lei internacional. O país tem uma reputação de ser muito cuidadoso sobre o respeito às regras internacionais. É um membro muito ativo da ONU, e a Carta da ONU proíbe ações deste tipo, como tentar resolver uma disputa ou impor sua vontade a outro país por meios militares.
Parece que o presidente [Bolsonaro] pensa que manter a viagem é algo normal a fazer. Eu li na imprensa que ele disse que [a viagem] era um plano de longa data, mas isso não é uma boa desculpa. Isso poderia ser adiado muito facilmente, dada a tensão que existe agora. Não vejo uma justificativa real por parte do governo brasileiro sobre porque essa visita parece ser tão importante agora.
O que o Brasil poderia fazer para tentar ajudar a resolver a crise entre Rússia e Ucrânia? O Brasil é uma potência importante, um grande país. Tem muita influência, muitas relações pelo mundo e um Ministério das Relações Exteriores muito bom, com diplomatas muito bem treinados.
Seria muito útil se o Brasil fizesse algum tipo de declaração sobre a questão de um país como a Rússia estar ameaçando um vizinho, isso poderia ajudar a convencer os russos de que ações assim estão fora das leis internacionais. E há muitos países em desenvolvimento que acompanham o que Brasil está fazendo. Qualquer declaração do Brasil é bastante influenciadora.
Como o senhor avalia as ações de Biden e dos governos europeus na crise atual? Biden tem feito um bom trabalho porque está muito próximo dos aliados na Europa. A Otan tem deixado claro que a Ucrânia ainda não se qualifica para se tornar membro. E que pode levar tempo antes de atingir os parâmetros.
Minha sensação é que as negociações, a diplomacia com a Rússia, envolvem basicamente dizer “vamos acalmar isso. Afaste suas forças dali. A Ucrânia não vai entrar na Otan amanhã ou no futuro próximo”. E vamos só tentar, como dizemos, tirar isso do forno e colocar em banho-maria. A situação precisa se acalmar, e é isso que os EUA e outros aliados da Otan estão tentando neste ponto.
Vamos ver qual será a resposta de Putin. Nenhum país vai dar uma garantia de que a Ucrânia nunca se tornará um membro da Otan. Uma declaração assim traria muitos danos aos princípios das relações internacionais, à liberdade dos países de escolher com quem eles vão se aliar e quais relações vão ter.
A tensão deve seguir por algum tempo. É uma daquelas situações em que os russos precisam de uma desculpa para recuar. E isso pode demorar. As tropas russas estão lá. A Ucrânia também está agora muito bem armada. E se a Rússia invadir a Ucrânia, os ucranianos vão estar lutando em seu próprio território, contra um invasor. Então, o incentivo para lutar será muito forte. Eu não gosto de fazer previsões porque, em assuntos internacionais, nunca se sabe, mas minha sensação é de que isso [a crise] irá ferver por algum tempo, e talvez depois esfriar. E desaparecer aos poucos.
Por que a Rússia se importa tanto em manter a Otan longe, sendo que não há ameaça palpável de uma invasão da Rússia por parte do Ocidente? Putin está no poder há bastante tempo. Ele já disse que a maior tragédia da história recente foi a queda da União Soviética. Lembre-se: ele foi criado como uma figura da KGB, teve uma carreira em meio à ideologia soviética comunista. Essa não é a ideologia que ele está defendendo, mas sim o sentido de “precisamos voltar a ser uma grande potência”, com o mesmo poder dos EUA, França, Europa etc. É uma compulsão dele, e ele tem um bom apoio no país, além de uma forte oligarquia que se tornou muito rica e se beneficiou de seu governo.
O senso de que a Rússia está sendo diminuída na forma como é vista no mundo tem uma influência poderosa sobre Putin. Ele quer recuperar o status de grande potência. Sua capacidade militar ainda é muito forte, apesar de a economia não estar tão bem. E tem havido protestos no país. Então, isso pode ser parte do plano de Putin para “trazer a Rússia de volta”.
Como o senhor vê a aproximação entre Rússia e China, ressaltada na semana passada após Putin se encontrar com o dirigente Xi Jinping em Pequim? A China é muito cautelosa com os russos. Sempre foi assim, mesmo durante o período da União Soviética. Os chineses são muito sofisticados em sua política externa, e dar um sinal de que tem um relacionamento produtivo com a Rússia é algo que eles veem como positivo para eles mesmos. Eles tiveram essa reunião com os russos para mostrar que eles têm relações com todos os países e estão envolvidos nas grandes questões internacionais.
Melvyn Levitsky, 83
Diplomata dos EUA por 35 anos, foi embaixador na Bulgária (1984-1987) e no Brasil (1994-1998). Também atuou como encarregado das relações bilaterais entre EUA e União Soviética e foi funcionário na embaixada de Moscou. Tem mestrado em ciência política na Universidade de Iowa e atualmente é professor de política internacional na Universidade de Michigan.

Melvyn Levitsky, durante aula na Universidade de Michigan, em 2017 –
Então premiê, Putin cavalga durante suas férias em Kyzyl, Sibéria (Rússia)









