Por meses, Abigail viveu em uma montanha que talvez nunca tivesse existido, ou talvez tivesse existido de um jeito que só ela poderia explicar. No alto de uma montanha, onde o vento parecia conversar com as árvores e as nuvens chegavam primeiro, vivia Abigail, sozinha em uma pequena casa de madeira, cercada por pássaros, aves, animais terrestres e serpentes.

Não lhe faltava nada: havia grãos, água, frutas e um jardim que ela cuidava com todo carinho. Dormia acompanhada pelas serpentes e acordava ao som dos passarinhos, dos beija-flores e dos bem-te-vis. Entre seus companheiros estavam Leandra, uma leoa, e Léo, um leão.

E, embora aquilo parecesse completamente normal para Abigail, havia algo que ela não conseguia entender: por que conseguia conversar com os animais? Por que gostava tanto das plantas, das flores e dos cheiros? E, principalmente, por que amava tanto os dias de chuva? O cheiro da terra molhada parecia maravilhoso para ela, embora não soubesse explicar o motivo.

O que Abigail não sabia era quem ela realmente era.

Na vida real, ela também era uma espécie de feiticeira, mas não dessas de caldeirão e poções. Abigail era conhecida como a Feiticeira da Limpeza. Ao lado de seu marido, Leopoldo, ela comandava uma empresa de produtos de limpeza e estava em busca de uma essência especial, extraída de uma determinada flor.

Ela queria encontrar aquele cheiro a qualquer custo, até descobrir que a flor crescia justamente no alto de uma montanha. Abigail subiu a montanha, encontrou a flor e conseguiu captar a essência que tanto procurava.

Porém, durante a descida, sofreu um grave acidente. Leopoldo conseguiu chamar a emergência e levá-la ao hospital, onde Abigail permaneceu em coma durante meses.

Enquanto isso, seu marido fazia o que podia: visitava Abigail praticamente todos os dias, conversava com ela e permanecia ao seu lado. O que ninguém sabia era que, antes do acidente, Abigail havia conseguido levar consigo justamente aquilo que procurava: a flor e sua essência.

Enquanto seu corpo permanecia no hospital, Abigail parecia viver uma vida completamente diferente. Na montanha, ela cuidava do jardim, cultivava flores, conversava com os animais, caminhava pela floresta e se encantava com o cheiro da chuva. Era como se existisse uma outra Abigail vivendo naquele lugar.

Mas, com o passar do tempo, algumas perguntas começaram a surgir em sua mente: “Como eu cheguei aqui? Por que eu falo com os animais? Por que eu gosto tanto de plantas, flores e cheiros? Por que eu amo tanto o cheiro da chuva? O que aconteceu comigo?”.

Até que, em determinado momento, começou a chover intensamente. Abigail estava em sua pequena casa de madeira quando escorregou em uma poça de água. E foi naquele instante que tudo mudou. Ela acordou.

Abigail abriu os olhos no hospital, desesperada e, ao mesmo tempo, sorrindo. Olhou ao redor e perguntou: “Meu Deus, o que eu estou fazendo aqui?”. Leopoldo estava ao seu lado. Ela olhou para ele como quem acabara de voltar de uma longa viagem e perguntou: “Meu amor, você não estava na floresta comigo?”.

Leopoldo, confuso, respondeu que não. Então Abigail começou a procurar respostas: “Onde estão os animais? Onde estão as serpentes? E o leão? E a leoa?”. Foi quando Leopoldo segurou sua mão e disse: “Meu amor, você estava em coma”. Abigail não conseguia acreditar. “Eu? Em coma? Não. Eu estava viva. Eu vivi todo esse tempo!”.

E, talvez, de alguma maneira, ela tivesse razão. Enquanto todos acreditavam que Abigail estava simplesmente inconsciente, dentro de sua própria mente ela havia vivido meses inteiros em uma montanha, cercada pela natureza e por criaturas que pareciam reais.

Naquele momento, Abigail percebeu que havia passado por algo impossível de explicar completamente.

Estar entre a vida e a morte havia feito com que ela se sentisse mais viva do que nunca. Ela havia encontrado a montanha, os animais, as flores, o cheiro da chuva e, principalmente, aquilo que tanto procurava: a essência da flor.

A verdadeira magia de Abigail talvez nunca tivesse sido apenas fabricar produtos de limpeza ou fazer a sujeira desaparecer. Talvez sua maior magia tivesse sido descobrir que, às vezes, é preciso atravessar os limites entre dois mundos para finalmente compreender o valor de estar vivo.

E assim, depois de meses entre a realidade e o sonho, Abigail finalmente estava em casa, com Leopoldo, com sua essência e com uma história que ninguém jamais conseguiria contar tão bem quanto ela.

E talvez fosse exatamente isso que Abigail tivesse encontrado naquela montanha: algo que ainda não sabia nomear. Não era apenas um sonho, não era apenas uma lembrança e, para ela, certamente não havia sido apenas um coma.

Era uma experiência que a fez atravessar o limite entre dois mundos e voltar diferente. Abigail descobriu que, às vezes, estar entre a vida e a morte pode nos ensinar justamente aquilo que esquecemos enquanto estamos vivos: a vida é, por si só, a maior de todas as magias.

“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” — Clarice Lispector