Polícia revela como sequestro da bebê Ayla foi planejado antes do nascimento em Campo Grande

Investigação aponta que suspeita fingiu gravidez, conquistou a confiança da mãe adolescente e teria planejado levar a recém-nascida para o Paraguai

Foto: Reprodução/ Polícia do Paraguai

A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul revelou novos detalhes sobre o sequestro da bebê, ocorrido em Campo Grande no dia 6 de agosto. Segundo a investigação, o crime teria sido planejado por Suzilaine da Graça Costa antes mesmo do nascimento da criança.

A recém-nascida foi localizada com vida na madrugada de domingo (9), em Pedro Juan Caballero, no Paraguai, após mais de 48 horas de buscas realizadas em uma operação conjunta entre forças de segurança brasileiras e paraguaias. Ayla foi posteriormente devolvida à família, após avaliação das autoridades responsáveis pela proteção da criança.

As novas informações foram apresentadas pela Polícia Civil durante entrevista coletiva nesta sexta-feira (14).

Suspeita teria fingido gravidez e se aproximado da família

De acordo com a delegada Anne Karine Sanches, da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), Suzilaine teria inventado uma gravidez e mantido a história perante familiares.

Durante a gestação da mãe de Ayla, que tinha 17 anos, a investigada passou a procurar contato com outras gestantes em grupos de WhatsApp voltados à compra, venda e doação de roupas e itens para bebês.

Foi por meio desses grupos que, segundo a investigação, ela conheceu a mãe de Ayla. A aproximação teria começado com conversas e doações de roupas e outros objetos para a criança.

Com o tempo, Suzilaine teria conquistado a confiança da adolescente. A investigada também teria se apresentado como fotógrafa e oferecido um ensaio fotográfico para a bebê, estratégia que, segundo a polícia, ajudou na aproximação entre as duas. A sessão chegou a ser marcada, mas não foi realizada.

Oferta de R$ 100 teria atraído mãe e irmã para imóvel

Depois do nascimento de Ayla, a adolescente teria recebido uma proposta para ganhar R$ 100 para cuidar de uma criança que, segundo a investigada, seria sua filha.

A mãe de Ayla aceitou a proposta e foi até uma casa no bairro Universitário, em Campo Grande, acompanhada da irmã, de 12 anos, e da recém-nascida. De acordo com o relato apresentado à polícia, as duas adolescentes foram rendidas e ameaçadas no imóvel.

A mãe relatou ainda que recebeu água oferecida por Suzilaine e que, posteriormente, ela e a irmã teriam sido mantidas no local durante horas.

Segundo o depoimento, a adolescente foi ameaçada para entregar a filha. Ela afirmou que Suzilaine disse que, caso houvesse resistência, as duas seriam “jogadas em um buraco”.

Para a delegada Anne Karine, o episódio não teria sido uma ação improvisada, mas resultado de um planejamento iniciado antes mesmo do nascimento de Ayla.

Bebê foi levada para o Paraguai

Após o sequestro, Ayla foi levada para o Paraguai. Segundo a investigação, Suzilaine teria fugido com a criança acompanhada do marido, Alex Melo de Abreu.

A bebê foi localizada por volta de 1h15 da madrugada de domingo (9), em uma residência no bairro Virgen de Caacupé, em Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia próxima à fronteira com Mato Grosso do Sul. Suzilaine e Alex estavam no imóvel e foram presos.

De acordo com as informações divulgadas pela investigação, o rastreamento de sinais de telefone e o cruzamento de dados ajudaram os policiais a identificar a fuga e localizar o endereço.

A operação contou com a participação de forças de segurança dos dois países. O caso também levou ao primeiro acionamento do Amber Alert Brasil em Mato Grosso do Sul, mecanismo utilizado para ampliar a divulgação de informações sobre crianças e adolescentes desaparecidos em situação de risco.

Polícia descarta hipótese de venda da bebê

Segundo a Polícia Civil, a investigação descartou a hipótese de que Ayla tenha sido sequestrada para ser vendida.

A principal linha apontada pelos investigadores é de que Suzilaine pretendia criar a criança como se fosse sua própria filha. A falsa gravidez mantida pela suspeita antes do crime reforçaria essa hipótese, segundo a polícia.

A investigação também descartou, até o momento, versões sobre uma possível participação de integrantes de facção criminosa. Segundo a delegada Anne Karine, essa história teria sido apresentada pela própria investigada com o objetivo de intimidar as adolescentes e impedir que elas procurassem a polícia.

Três pessoas foram presas

Ao todo, três pessoas foram presas durante a investigação.

Além de Suzilaine e Alex, detidos no Paraguai, um terceiro homem foi preso em Campo Grande por suspeita de envolvimento relacionado ao imóvel utilizado durante a ação. Segundo a polícia, ele teria disponibilizado a residência.

A participação individual desse terceiro investigado ainda é objeto de apuração. A defesa afirma que ele não sabia que o imóvel seria utilizado para um crime e nega qualquer envolvimento direto no sequestro.

Alex Melo de Abreu também era procurado pela Justiça do Amazonas. Segundo as informações divulgadas pelas autoridades, ele possui condenação por homicídio e teria utilizado identidade falsa durante a fuga para o Paraguai.

Ayla Emanuelly desapareceu em Campo Grande. — Foto: Redes sociais

Defesa nega envolvimento do terceiro preso

Em nota enviada ao portal g1 MS, os advogados Silvio Ranier e Dendry Rios afirmaram que o homem preso em Campo Grande não tinha conhecimento do plano e não participou diretamente do crime.

Segundo a defesa, ele apenas teria emprestado o imóvel para Suzilaine para outras atividades e não sabia qual seria a finalidade da utilização da casa.

Os advogados também afirmaram que o cliente não possui antecedentes criminais, que ficou abalado com a prisão e que pretende adotar medidas judiciais para recuperar a liberdade.

A defesa declarou ainda confiar no trabalho das autoridades e afirmou que pretende apresentar elementos para demonstrar que o cliente não teve participação no sequestro.

Nota da defesa na íntegra

“A DEFESA DO HOMEM RESPONSÁVEL PELO IMÓVEL ONDE A SUPOSTA SEQUESTRADORA TERIA FICADO PARA ORQUESTRAR O SEQUESTRO DA BEBÊ AFIRMA QUE ELE NÃO TEM ABSOLUTAMENTE NENHUMA RELAÇÃO DIRETA COM O CRIME, BEM COMO NÃO SABIA E SEQUER IMAGINAVA OS PLANOS DA MULHER APONTADA PELA POLÍCIA COMO SEQUESTRADORA.

O HOMEM É DE FAMÍLIA DE PESSOAS HONESTAS, É TRABALHADOR, NÃO POSSUI ANTECEDENTES CRIMINAIS, NUNCA SE ENVOLVEU EM CONFUSÃO E ESTÁ MUITO ABALADO COM TUDO ISSO. NA OCASIÃO DOS FATOS, APENAS EMPRESTOU SEU IMÓVEL A UMA MULHER CONHECIDA PARA REALIZAR OUTRAS ATIVIDADES, MAS JAMAIS IMAGINARIA QUE A FINALIDADE SERIA A PRÁTICA DE UM CRIME.

A DEFESA AFIRMA QUE NÃO SE PODE ATRIBUIR CULPA DIRETA AO HOMEM RESPONSÁVEL PELO IMÓVEL, UMA VEZ QUE, LOGO DEPOIS DE EMPRESTAR A CASA, ELE PEDIU O IMÓVEL DE VOLTA E RETOMOU SUA ROTINA, POIS NÃO TINHA CONHECIMENTO DO QUE A MULHER ESTARIA FAZENDO OU PLANEJANDO.

QUANDO A POLÍCIA CHEGOU AO IMÓVEL, NA MANHÃ DE SÁBADO, O CLIENTE ESTAVA TRANQUILO E RESPONDEU ÀS PERGUNTAS DOS POLICIAIS, CONFIRMANDO QUE DESCONHECIA OS FATOS.

A DEFESA AFIRMA AINDA QUE O CLIENTE FOI OUVIDO NA DELEGACIA SEM A PRESENÇA DE ADVOGADOS E QUE, DIANTE DOS ELEMENTOS DA INVESTIGAÇÃO, PRETENDE DEMONSTRAR QUE ELE NÃO POSSUI RELAÇÃO DIRETA COM O CRIME.

A DEFESA CONFIA NO TRABALHO DAS AUTORIDADES, NO BOM SENSO E NA JUSTIÇA E AFIRMA QUE ESTÁ ADOTANDO MEDIDAS PARA RESTABELECER A LIBERDADE DO CLIENTE. OS ADVOGADOS TAMBÉM AFIRMAM QUE ELE FICOU FELIZ AO SABER QUE A BEBÊ FOI LOCALIZADA COM SAÚDE E SEGURANÇA.”

Atenciosamente,
Dr. Silvio Ranier, advogado, e Dendry Rios, assistente de defesa.