Nem toda curtida é de verdade: estrutura investigada como ‘fazenda de bots’ é encontrada pela polícia

Equipamentos apreendidos em imóvel ligado ao consultor argentino Fernando Cerimedo serão investigados para determinar a finalidade da estrutura

Fazenda de bots é encontrada na Bolívia. Foto: Redes Sociais

Nem toda curtida, comentário ou compartilhamento nas redes sociais representa, necessariamente, a manifestação espontânea de uma pessoa. A descoberta de uma estrutura descrita pelas autoridades bolivianas como uma “minigranja de bots” voltou a chamar atenção para a possibilidade de criação artificial de engajamento na internet.

A estrutura foi encontrada durante uma operação da Polícia e do Ministério Público da Bolívia em um imóvel ligado ao consultor argentino Fernando Cerimedo, na capital da Bolívia, La Paz. Além dos equipamentos, os investigadores apreenderam dinheiro em espécie, documentos e outros materiais. Segundo o fiscal departamental de La Paz, Carlos Torres, a “minigranja de bots” foi apreendida e será analisada pelas autoridades.


O que é uma “fazenda de bots”?

Em geral, esse tipo de estrutura é utilizado para automatizar atividades na internet, como publicações, curtidas, comentários e interações em redes sociais. Dependendo de sua configuração e finalidade, o sistema pode criar uma impressão artificial de popularidade ou ampliar o alcance de determinados conteúdos. Ou seja, nem sempre determinados perfis nas redes sociais, possuem curtidas reais.

Uma fazenda de bots (ou bot farm) é uma rede de dezenas, centenas ou milhares de dispositivos (como celulares e computadores) configurados para automatizar ações na internet em larga escala.

É justamente nesse ponto que está o alerta: para quem vê apenas os números na tela, pode ser difícil saber se milhares de interações foram feitas espontaneamente por pessoas reais ou se parte daquele engajamento foi gerada artificialmente.

No caso investigado na Bolívia, porém, a finalidade exata dos equipamentos ainda não foi divulgada oficialmente. Por isso, as autoridades precisam realizar perícias para determinar como a estrutura funcionava e para que era utilizada.

Também não há confirmação pública de que o material encontrado fosse composto por “milhares de celulares”, como chegou a circular em algumas publicações nas redes sociais.


Investigação começou após ataque a tiros

A descoberta ocorreu no contexto das investigações envolvendo Fernando Cerimedo, que está preso preventivamente por 180 dias enquanto a Justiça boliviana apura seu possível envolvimento no ataque a tiros contra a advogada Nadia Beller.

Beller foi atingida por três disparos em Santa Cruz de la Sierra e sobreviveu ao ataque. Cerimedo foi detido posteriormente no aeroporto da cidade, quando se preparava para viajar para Buenos Aires.

A Justiça boliviana determinou a prisão preventiva do consultor por 180 dias. Cerimedo também passou a ser investigado em outro procedimento por suspeitas relacionadas a enriquecimento ilícito.


Defesa nega acusações

As investigações seguem em andamento e a defesa de Cerimedo nega as acusações contra ele.

Em relação aos equipamentos apreendidos, ainda será necessário aguardar a conclusão das perícias e das investigações para saber se a estrutura encontrada era efetivamente utilizada para operar uma rede de contas automatizadas e qual seria sua finalidade.

O caso, no entanto, serve como alerta para o ambiente digital: os números exibidos nas redes sociais nem sempre contam toda a história. Uma publicação com grande volume de curtidas e comentários pode parecer extremamente popular, mas, em determinadas situações, parte dessas interações pode não refletir o interesse espontâneo de pessoas reais.