Kiev diz que conversas estão em encruzilhada e que fracasso levará a nova ofensiva de Moscou

IGOR GIELOW
FOLHA DE S. PAULO
SÃO PAULO – O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, afirmou nesta terça (15) que seu país precisa entender que “a porta da Otan não está aberta” para admissão, em referência à aliança militar de 30 membros comandada pelos Estados Unidos.
A frase vem em meio às negociações com a Rússia para encerrar os combates no país vizinho, iniciados no dia 24 de fevereiro. Renunciar à Otan é uma das condições centrais de Moscou para parar a guerra, e a sinalização de Zelenski é a mais clara já feita sobre o tema.
A reunião virtual entre os grupos que discutem os termos para o fim do conflito continua nesta terça (15), após uma “pausa técnica” anunciada pelos ucranianos na segunda. Antes das conversas desta semana, houve três rodadas presenciais na Belarus e um anticlimático encontro de chanceleres na Turquia.
Na madrugada e na manhã desta terça, a violência continuou. Kiev sofreu ataques em áreas residenciais e decidiu impor um toque de recolher a partir desta noite, por 35 horas, em antecipação ao eventual fracasso das conversas e início de uma nova ofensiva russa.
Os ataques ocorreram horas antes da chegada dos premiês de Polônia, República Tcheca e Eslovênia, uma demonstração inédita até aqui de apoio a Zelenski por países do Leste Europeu especialmente refratários aos russos.
A demora nas negociações é previsível. O Kremlin quer a desmilitarização do vizinho, sua renúncia à adesão à Otan e à União Europeia e o reconhecimento das áreas que perdeu para a Rússia (Crimeia) e para separatistas (Donbass) em 2014.
Zelenski já havia topado algo intermediário, algo agora reforçado por sua frase sobre a Otan durante uma reunião virtual com dez chefes de Estado do norte europeu, mas exige a retirada imediata de forças russas, o que tiraria a pressão exercida por Putin.
Ao mesmo tempo, disse que o russo tem “de ser parado” pelo Ocidente, antes que países da Otan sejam seus próximos alvo, e voltou a pedir a já negado tentativa de implementar uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia —o que oporia forças ocidentais às russas.
A guerra já havia tomado um curso mais perigoso desde domingo (13), quando a Rússia atacou uma base de treinamento e ligação entre forças ucranianas e da Otan. Na segunda, o presidente americano, Joe Biden, voltou a dizer que não quer um confronto com Moscou, pois ele seria “a Terceira Guerra Mundial” entre potências nucleares.
Há problemas adicionais para Zelenski. No sul do país, onde a ofensiva russa atingiu mais ganhos, há relatos de que Moscou quer promover um plebiscito na região de Kherson, buscando transformá-la em mais uma “república popular”, a exemplo das duas do Donbass, no leste do país.
Assim, o roteiro de reconhecimento por Putin estaria dado, incluindo mais um item no carrinho de perdas de Kiev. Para a Rússia, que aplica um cerco brutal ao porto de Mariupol, tudo o que separa a criação de uma ponte terrestre entre a região russa de Rostov à Crimeia anexada, o desenho parece lógico.
Resta, claro, combinar com os moradores, o que não será aferido numa votação feita sob mira de armas —em 2014, a anexação da Crimeia passou por tal plebiscito e foi pacífica, ainda que ilegal segundo as Nações Unidas, pois a região tinha maioria esmagadora de russos e pertenceu a Moscou até 1954.
Os protestos diários em Kherson, com habitantes demonstrando coragem ante os militares da Guarda Nacional, a tropa pretoriana do Kremlin, provam que será um trabalho complicado. É mais um nó para os russos, que enfrentam problemas táticos e a resistência não antevista dos militares ucranianos.
Já no Donbass, cujas forças buscam expandir sua fronteira até aquela historicamente associada à região, o dia por ora está mais calmo. Na segunda, um míssil balístico lançado pelo sistema OTR-21 Totchka atingiu o centro de Donetsk, capital da autoproclamada república do mesmo nome, matando 16 pessoas.
Peskov queixou-se do Ocidente, dizendo que ninguém criticou a Ucrânia pelo ataque. Kiev nega a autoria, dizendo que os russos atiraram contra seus aliados, uma acusação comum no Kremlin contra o que chama de “terroristas nacionalistas e neonazistas” infiltrados nas Forças Armadas do vizinho.











