Uma crise bancária de grandes proporções está provocando preocupação no Paraguai. A intervenção no Ueno Bank, instituição com aproximadamente 2,9 milhões de clientes, deixou correntistas sem acesso normal ao dinheiro, provocou filas em agências e desencadeou uma crise política que chegou ao presidente Santiago Peña.
A situação também serve de alerta para brasileiros que mantêm contas, empresas ou investimentos no país vizinho, especialmente aqueles atraídos pelas vantagens econômicas e tributárias paraguaias.
O que aconteceu e por quê?
O Banco Central do Paraguai determinou, no dia 2 de novembro, a intervenção no Ueno Bank, após identificar que a instituição não possuía capital suficiente para atender às exigências mínimas de segurança financeira.
O índice de solvência do banco caiu para menos da metade do mínimo exigido. Em outras palavras, a instituição não tinha capital próprio suficiente para suportar os riscos de suas operações dentro dos padrões determinados pelas autoridades.
Além disso, estão sendo investigadas suspeitas de irregularidades em operações financeiras, incluindo empréstimos concedidos a empresas ligadas ao grupo controlador do banco.
Com a intervenção, as operações foram suspensas, impedindo clientes de movimentar normalmente seus recursos.
O dinheiro dos clientes foi perdido?
Não necessariamente. O Paraguai possui um Fundo de Garantia de Depósitos que protege valores de até 228,3 milhões de guaranis por cliente e instituição financeira.
Para acelerar a devolução do dinheiro, o governo aprovou uma medida que permite antecipar até 40 salários mínimos paraguaios, aproximadamente 121,76 milhões de guaranis, aos depositantes.
O Banco Central informou que os pagamentos deverão começar em até 24 horas, com prazo máximo previsto de cinco dias úteis para essa etapa. A devolução de valores superiores ao limite antecipado seguirá outros procedimentos.
Por que a crise virou um problema político?
O presidente paraguaio, Santiago Peña, foi sócio do grupo controlador do Ueno Bank até março de 2025.
A ligação levantou questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses e falhas na fiscalização da instituição financeira.
Na quarta-feira (4), um grupo de 35 deputados oposicionistas apresentou um pedido de impeachment contra Peña e o vice-presidente Pedro Alliana.
O pedido ainda depende de tramitação parlamentar e não representa condenação ou afastamento dos governantes.
E os brasileiros? Podem ser prejudicados?
Sim, principalmente aqueles que possuem contas no Ueno Bank ou mantêm relações comerciais com empresas atingidas pela crise.
Em Mato Grosso do Sul, os reflexos podem aparecer na região de Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, onde brasileiros e paraguaios compartilham uma intensa atividade comercial.
Empresas com dinheiro bloqueado podem enfrentar dificuldades para pagar fornecedores, funcionários e receber clientes. Entretanto, ainda não existe um levantamento que permita dimensionar os prejuízos na fronteira.
Para quem utiliza apenas bancos brasileiros, não há indicação de risco direto causado pela intervenção no Paraguai.
O outro lado das vantagens de investir no Paraguai
O episódio também deixa uma reflexão para brasileiros que escolheram transferir patrimônio, abrir empresas ou investir no Paraguai em busca de impostos menores e condições consideradas mais vantajosas.
Afinal, as vantagens de fazer negócios fora do Brasil costumam receber bastante publicidade. Os riscos, nem sempre.
É perfeitamente legal manter negócios e investimentos no exterior, desde que sejam respeitadas as regras aplicáveis. Mas quem busca os benefícios de outro sistema econômico também precisa conhecer suas limitações.
Em situações como essa, não basta ter dinheiro depositado: é necessário entender as garantias oferecidas pelo país, os limites de proteção e os procedimentos para recuperar os recursos.
O imposto pode ser menor do outro lado da fronteira, mas o risco financeiro não desaparece ao atravessá-la.
Isso não significa que os clientes sejam responsáveis pela crise ou que todos os brasileiros no Paraguai tenham buscado vantagens tributárias. A responsabilidade por eventuais irregularidades deverá ser apurada pelas autoridades competentes.
O que acontece agora?
As autoridades paraguaias trabalham para devolver os depósitos protegidos e investigar as responsabilidades pela situação do Ueno Bank.
O Banco Central afirma que o problema está concentrado nessa instituição e que os demais bancos do país continuam operando.
Para os brasileiros, a recomendação é acompanhar as informações oficiais, especialmente quem possui recursos depositados no Paraguai.
A crise ainda está em desenvolvimento, e seus efeitos econômicos e políticos dependerão das próximas medidas adotadas pelo governo paraguaio.












