Aumento de combustível deve se disseminar rapidamente por toda a economia

Em posto na Zona Sul do Rio preço da gasolina já está em R$ 7,99. Valores do diesel e do gás de cozinha também subiram. Efeito deve se espalhar pela economia, segundo especialistas Foto: Brenno Carvalho
O diretor técnico da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Bruno Lucchi, disse que o agronegócio brasileiro será prejudicado como um todo. Os produtos com preços mais afetados são aqueles cujas cadeias são mais intensivas em mecanização, como cana-de-açúcar, soja, milho e café.
— O frete vai encarecer e afetar diretamente o orçamento do produtor rural. E quando há aumento dos preços dos combustíveis, há um repasse para todos os produtos e serviços da economia brasileira, uma vez que o principal modal que usamos é o rodoviário —afirmou Lucchi.
Os impactos também serão observados na construção civil. José Carlos Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), afirmou que o frete é um forte componente dos custos das empresas, e a alta será percebida mais rapidamente nas cotações de produtos como brita, areia e cimento.
— O óleo diesel é o básico para todos os nossos custos. Obras de terraplanagem, estradas, pontes. Esse insumo pesa muito — disse Martins.
Estatal terá de se explicar
A principal preocupação da construção civil é com obras públicas, em que não há repasses de preços. A terraplanagem, por exemplo, é altamente dependente do óleo diesel. O risco, de acordo com o setor, é não conseguir executar os serviços sem algum tipo de compensação.
O dia ontem foi de mais reações à alta anunciada pela Petrobras, que inclui também um reajuste de 18,8% na gasolina e de 16,06% no gás de cozinha vendidos às distribuidoras. A juíza federal Flávia de Macêdo Nolasco, da 9ª Vara Federal do Distrito Federal, deu prazo de 72 horas ao presidente Jair Bolsonaro e à Petrobras para que expliquem o aumento anunciado pela petroleira no preço dos combustíveis.
A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), ligada ao Ministério da Justiça, também cobrou esclarecimentos à Petrobras. O órgão ainda notificou a refinaria de Mataripe (BA), vendida pela Petrobras ao fundo árabe Mubadala, e deu prazo de dez dias para que empresa preste esclarecimentos sobre fornecimento e elevação nos preços dos combustíveis.
O aumento desencadeou uma série de cobranças por compensações para mitigar o impacto sobre a atividade econômica. O setor de transportes deve repassar os custos no preço do frete. Francisco Pelucio, presidente da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística), disse que o aumento do diesel deve fazer com que o custo do frete tenha um ajuste mínimo de 8,75%.
Pressão por subsídio
Segmentos como o de transporte urbano pressionam o governo por subsídios para não repassarem os preços aos consumidores.
— Vamos dizer que o custo da prestação de serviço é de R$ 5 por passageiro: o prefeito decide fixar a tarifa em R$ 4 e tira dos cofres públicos R$ 1 para compensar a diferença que falta para estabelecer a tarifa de remuneração — disse o presidente-executivo da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), Francisco Christovam.
Na quinta-feira, o Congresso aprovou a redução do PIS/Cofins sobre o diesel e a mudança no ICMS sobre os combustíveis. O objetivo do governo é reduzir em R$ 0,60 o valor do litro do diesel.
Sócio-gestor da consultoria de negócios Inter.B, o economista Claudio Frischtak acredita que, apenas levando em conta a conjuntura atual, a inflação medida pelo IPCA em 2022 deve ficar entre 7% e 7,5%, ante uma previsão anterior de 5,5%. Ele ressaltou que, a curtíssimo prazo, o setor mais atingido será o de transportes.
— O problema é que o transporte é um insumo presente praticamente em todos os setores, direta ou indiretamente, da economia. De imediato, quem sentirá mais o golpe é o setor de transporte e, em um segundo momento, toda a economia. Você não sabe quanto tempo a guerra vai durar, e a gente não sabe a extensão e a intensidade das sanções e as retaliações — disse.
A Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), que reúne empresas que cuidam de estradas concedidas, lembra que o preço do asfalto subiu mais de 70% só no ano passado.
— Os aumentos do preço do asfalto comprometem o caixa das concessionárias e a capacidade de investimento das empresas — disse Marco Aurélio Barcelos, diretor-presidente da entidade.
Em outra frente, o governo também monitora a movimentação de caminhoneiros autônomos, insatisfeitos com o aumento do diesel. Ao GLOBO, o Ministério da Infraestrutura descartou o risco de paralisações.
Os combustíveis foram os principais vilões da inflação em 2021. O etanol disparou 62,23% no ano passado. Já a gasolina, 47,49%. O gás de botijão subiu 36,99%. São preços que influenciam outros preços na economia Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
Com a alta nos preços dos combustíveis, o grupo dos transportes teve alta forte em 2021, pesando no bolso dos mais pobres. A alta acumulada foi de 21,03% Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
Entre os gêneros alimentícios, o café foi um dos que mais encareceram em 2021. Os alimentos formam um dos grupos de maior alta de preços na composição do IPCA: subiram 14% no ano passado. As bebidas ficaram, em média, 7,94% mais caras. Foto: Arquivo
Até mesmo o churrasco, uma das principais escolhas de lazer do brasileiro nas horas vagas, ficou salgado em 2021. As carnes subiram 8,45% em média no ano passado Foto: Fábio Rossi / Agência O Globo
Outro item essencial no orçamento do brasileiro, a energia elétrica disparou em 2021 sob efeito da crise hídrica, que limitou a operação de hidréletricas. No ano, tarifa de eletricidade residencial subiu 21,21% Foto: TINGSHU WANG / Reuters









