O relatório preliminar divulgado nesta quinta-feira (22) pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) trouxe novas informações sobre a queda do helicóptero que matou o cantor sertanejo Rick, da dupla Rick & Renner, e outras quatro pessoas em Santa Catarina.
O acidente aconteceu em 21 de setembro de 2026, na região de Urubici, na Serra Catarinense. A aeronave, um helicóptero Bell 430, atingiu uma área montanhosa do Parque Nacional de São Joaquim, provocando a morte de todos os ocupantes.
Entre as principais descobertas está a ausência de gravações das conversas dos pilotos durante o voo. Embora o helicóptero possuísse um gravador de voz instalado na cabine, os arquivos recuperados pelos investigadores correspondiam a uma manutenção anterior, realizada em data não identificada.
O documento também apresenta um histórico de problemas técnicos na aeronave e informações sobre as condições meteorológicas encontradas pela tripulação.
Apesar das constatações, o Cenipa ainda não determinou as causas do acidente.
Caixa-preta continha apenas conversas de manutenção
O helicóptero estava equipado com um gravador de voz da cabine, conhecido pela sigla CVR, capaz de armazenar aproximadamente 30 minutos de áudio.
O equipamento havia sido instalado em maio de 2002.
Durante a investigação, técnicos conseguiram recuperar os arquivos armazenados no dispositivo. Entretanto, nenhuma das gravações correspondia ao voo em que ocorreu o acidente.
Os áudios continham conversas relacionadas a um procedimento de manutenção realizado anteriormente.
Outro ponto identificado foi a ausência de uma verificação prevista no manual do equipamento.
O fabricante orientava a realização de um teste de funcionamento do gravador antes do primeiro voo do dia, por meio de um botão localizado no painel da cabine.
Contudo, esse procedimento não constava na lista de checagem encontrada junto à aeronave.
O relatório não esclarece se os pilotos chegaram a realizar o teste por outro procedimento. Também não estabelece relação entre o problema do gravador e a queda do helicóptero.
A ausência dos registros de áudio dificulta a reconstrução das conversas e decisões tomadas pela tripulação nos momentos anteriores ao impacto.
Helicóptero apresentava histórico de falhas elétricas
A investigação também identificou relatos de problemas recorrentes nos geradores elétricos da aeronave.
Esses equipamentos são responsáveis pelo fornecimento de energia aos sistemas do helicóptero.
Segundo as informações reunidas pelo Cenipa, as falhas ocorriam de maneira intermitente. Em algumas situações, um dos geradores deixava de funcionar, enquanto o outro continuava alimentando os sistemas elétricos.
Mecânicos relataram que parte das ocorrências foi observada durante voos em condições de chuva ou umidade.
Em maio de 2026, os geradores passaram por intervenções de manutenção. Entretanto, os problemas voltaram a aparecer, atingindo alternadamente os dois equipamentos.
Diante da situação, um mecânico recomendou que o helicóptero retornasse à oficina para uma investigação mais aprofundada das panes.
Conforme os registros analisados, essa nova avaliação ainda não havia ocorrido quando o acidente aconteceu.
O relatório também menciona episódios anteriores de desconexão involuntária do piloto automático.
Em março, um componente do sistema foi substituído após uma falha registrada durante o voo. Segundo as informações coletadas, o problema específico não voltou a ocorrer depois do reparo.
Os investigadores ressaltam que esses registros técnicos ainda não permitem afirmar que as falhas tenham contribuído para o acidente.
Helicóptero atingiu montanha a 1.686 metros de altitude
O voo partiu do Aeródromo Costa Esmeralda, em Porto Belo, no litoral de Santa Catarina, com destino à região de São Joaquim.
A programação original incluía outras paradas, mas foi modificada em razão das condições meteorológicas.
Durante o deslocamento, o helicóptero encontrou uma região com chuva, nuvens baixas e visibilidade reduzida.
Por volta das 11h32, um morador registrou um vídeo de aproximadamente 18 segundos mostrando a aeronave seguindo em direção à Serra da Boa Vista, antes de desaparecer em meio à nebulosidade.
Câmeras de segurança também registraram sons associados à passagem do helicóptero pouco antes do acidente.
A aeronave atingiu a encosta norte do Morro Convento dos Padres, no Parque Nacional de São Joaquim, a aproximadamente 1.686 metros de altitude.
O ponto de impacto ficava cerca de 104 metros abaixo do topo da montanha.
Condições do tempo são analisadas pelos investigadores
No momento do acidente, uma frente fria provocava instabilidade atmosférica na região Sul do Brasil.
O relatório aponta registros de chuva, trovoadas, nuvens densas e redução significativa da visibilidade nas áreas mais elevadas da Serra Catarinense.
Imagens meteorológicas e registros de equipamentos de monitoramento confirmaram a presença de nebulosidade nas proximidades do local da queda.
A ocorrência foi classificada como voo controlado contra o terreno, conhecido pela sigla internacional CFIT.
Essa classificação descreve situações em que uma aeronave em voo colide involuntariamente com o solo, uma montanha ou outro obstáculo, sem que necessariamente tenha ocorrido perda total de controle antes do impacto.
A classificação, entretanto, não representa uma conclusão definitiva sobre os fatores que levaram ao acidente.
Cinco pessoas morreram na tragédia
O acidente provocou a morte de todos os ocupantes do helicóptero.
Além do cantor Rick, da dupla sertaneja Rick & Renner, morreram:
- Bruno Avelar de Souza, empresário;
- Paulo Soares, videomaker;
- Antonio Roberto Nóbrega Araújo, piloto;
- Leopoldo Barros Teixeira, copiloto.
Os destroços foram encontrados em uma área de difícil acesso, com vegetação densa e terreno montanhoso.
A tragédia provocou repercussão nacional, especialmente entre artistas e admiradores da música sertaneja.
Investigação continua e ainda não há conclusão definitiva
O Cenipa segue analisando componentes e registros eletrônicos retirados dos destroços da aeronave.
Entre os materiais recolhidos estão equipamentos de navegação, unidades de controle dos motores e dispositivos que podem armazenar informações sobre o funcionamento do helicóptero.
Esses dados poderão auxiliar os investigadores na reconstrução do voo e na identificação de possíveis fatores contribuintes.
O relatório preliminar reúne informações técnicas e circunstâncias já identificadas, mas não estabelece culpa ou responsabilidade pelo acidente.
A conclusão dependerá do encerramento das análises e da publicação do relatório final.
Até o momento, a investigação não confirmou se as falhas anteriores nos sistemas elétricos, as condições meteorológicas ou outros fatores tiveram participação determinante na queda.











