O bloqueio e a restrição de plataformas de apostas esportivas, conhecidas como bets, vão além da questão financeira e também levantam um alerta para a saúde mental dos usuários. Dados citados pelo Ministério da Saúde mostram que milhões de brasileiros apresentam algum nível de risco relacionado ao comportamento de apostar.

Segundo os dados divulgados, 10,9 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais são considerados jogadores de risco, o equivalente a 6,8% da população nessa faixa etária.

Desse total, aproximadamente 1,4 milhão de pessoas apresentam um padrão de apostas compatível com o transtorno do jogo. A condição é caracterizada pela dificuldade de controlar o comportamento de apostar mesmo diante de prejuízos financeiros, familiares e emocionais.

Atendimentos no SUS aumentaram

O problema também aparece nos registros do Sistema Único de Saúde (SUS).

Entre janeiro de 2018 e maio de 2025, foram registrados 10.553 atendimentos relacionados a jogo patológico e mania de jogo e aposta. De acordo com os dados apresentados, o número representa um crescimento de 104% durante o período analisado.

Em 2024, os homens representaram 57% dos atendimentos, enquanto as mulheres corresponderam a 43%. A faixa etária entre 20 e 49 anos concentrou a maior parcela dos casos.

Mais de 1 milhão pediu bloqueio voluntário

Os próprios usuários também demonstram a dimensão do problema.

Até agosto deste ano, 5 milhões de brasileiros deixaram de acessar bets autorizadas. Desse total, cerca de 1,2 milhão solicitaram voluntariamente o bloqueio do acesso às plataformas.

Entre as pessoas que pediram a autoexclusão, o principal motivo declarado foi a perda de controle sobre o jogo por questões relacionadas à saúde mental, responsável por 35,93% dos pedidos.

Restrição pode provocar ansiedade e irritabilidade

A retirada das plataformas também pode representar um período de dificuldade para quem já desenvolveu um comportamento compulsivo.

Segundo o psicólogo comportamental Alexandre Zaniroto, citado na reportagem de O Estado de Mato Grosso do Sul, quando um comportamento já está consolidado, a impossibilidade de realizá-lo pode provocar inicialmente uma intensificação da busca por alternativas.

Entre as possíveis reações estão ansiedade, irritabilidade e novas tentativas de acesso a plataformas que ainda estejam disponíveis.

Quando apostar deixa de ser entretenimento?

O alerta principal é que o problema não está necessariamente em uma aposta ocasional, mas na perda de controle sobre o comportamento.

Alguns sinais merecem atenção, como:

  • dificuldade para parar de apostar;
  • tentativa de recuperar dinheiro perdido apostando novamente;
  • esconder das pessoas próximas quanto dinheiro está sendo gasto;
  • problemas financeiros provocados pelas apostas;
  • conflitos familiares;
  • ansiedade ou irritabilidade quando não consegue apostar;
  • utilização das apostas como forma de fugir de problemas emocionais.

A restrição das plataformas, portanto, não encerra necessariamente o problema para quem já apresenta dependência. O acompanhamento adequado pode ser necessário para evitar que a pessoa simplesmente procure outras formas de continuar apostando.

Fonte: O Estado de Mato Grosso do Sul, edição de 7 de outubro de 2026. Os dados citados na reportagem são atribuídos ao Ministério da Saúde e ao governo federal.