A tecnologia do campo conectada com a cidade

Já se foram os tempos em que a figura do homem de chapéu de palha à cabeça com a enxadinha no ombro representava a essência do produtor e da produção rural

Jota Menon

É claro que não se pode deixar de admitir que a forma artesanal de cultivar a terra ainda persiste em algumas áreas rurais brasileiras, com mais ênfase nas pequenas propriedades, onde se pratica a agricultura familiar de subsistência. Existe, persiste e deve continuar existindo por algum bom tempo, ainda.

Porém, no decorrer das últimas quatro décadas, o desenho da figura do agricultor brasileiro mudou completamente e o homenzinho de chapéu de palha e enxada nas costas deu lugar à silhueta de alguém portando um sofisticado microcomputador, tendo ao fundo uma imponente colheitadeira ou uma plantadeira, um drone sobrevoando as imediações e extensas plantações, daquelas de perder de vistas, com as mais variadas commodities agrícolas brasileiras.

CONECTADO _ Produtor rural acompanha desenvolvimento da safra em tempo real _ Paola Loureiro

É o homem do campo acompanhando a evolução da sua safra, plenamente conectado à cidade, mas especialmente à Bolsa de Chicago, sem deixar, contudo, de estar atento a outros tantos websites que lhe possam ajudar a tornar a arte de produzir alimentos menos custosa e mais rentável.

Os consumidores, e os governantes que os representam, estão, a cada dia que se passa, mais exigentes. Isso faz com que o homem do campo também tenha de se preparar para atender essa demanda dentro dos padrões e normas estabelecidos pelo mercado consumidor interno e externo, este último sempre impondo novas regras para garantir a aquisição de alimentos produzidos de forma sustentável e da mais alta qualidade.

Foi com base nessa premente necessidade de produzir mais, com menos custo e com melhor qualidade, que os agricultores brasileiros se aliaram ao conhecimento e ao uso de tecnologias de maneira a obter uma produção mais eficiente, com redução da área cultivada, incremento na produtividade e menos agressões ao meio ambiente.

E as mudanças e adequações não param por aí.

Estudos apontam que o futuro tende a seguir com a substituição dos modelos tradicionais agrícolas, que utilizam alto volume de defensivos e adubação, pela média, para modelos mais tecnológicos e de uso de menos agrotóxicos tão agressivos ao meio ambiente e à saúde do consumidor.

NOVAS FERRAMENTAS QUE LIGAM O CAMPO À CIDADE – Segundo levantamento efetuado por Luiz Gustavo Mendes, engenheiro agrônomo com licenciatura em Ciências Agrárias pela Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz (ESALQ/USP/Piracicaba – SP), estes modelos tecnológicos mais recentes englobam principalmente um manejo integrado de pragas e redução do uso indiscriminado de defensivos químicos.

CONECTADO _ Tecnologia permite ao produtor conferir os mínimos detalhes da planta desde a emergência _ Paola Loureiro

“A irrigação e uso consciente da água, conceitos de agricultura de precisão, alta coleta e interpretação dos dados provenientes das lavouras, também são metas a serem atingidas. Hoje, com mais tecnologia no campo, os produtores já contam com ferramentas que auxiliam a interpretação de dados com agilidade. Além disso, há crescimento expressivo nos cursos de especialização e treinamentos, presenciais ou à distância, acerca das atividades agrícolas e agricultura digital” acentua o pesquisador.

Para ele, o conhecimento local dos produtores e a troca de experiências com profissionais do ramo agrega muito valor às tecnologias que serão empregadas em cada caso. As fórmulas de adubação a serem utilizadas no futuro podem ter ajustes locais, em nível de cada fazenda, o que acarretará melhor utilização de insumos e sustentabilidade do sistema. Além disso, esperam-se possíveis incrementos na produtividade com essa tecnologia na agricultura.

No documento que veiculou no blog aeagro.com.br, o engenheiro agrônomo que também tem mestrado em Engenharia de Sistemas Agrícolas, elenca uma série de tecnologias disponíveis, hoje, no mercado e que são capazes de tornar mais fácil o dia-a-dia do empreendedor rural e, claro e o mais importante, mais rentável a sua atividade.

GERENCIAMENTO DE ATIVIDADES – Segundo o pesquisador, o Trello é uma dessas ferramentas de gerenciamento de projetos ou atividades que podem ser realizadas e executadas individualmente ou em grupo.

CONECTADO _ Uso de tecnologia faz toda a diferença na Agricultura de Precisão _ Paola Loureiro

Ele traz uma perspectiva visual do status de quem está trabalhando em quê e o que ainda precisa ser feito. O Trello é gratuito e os cartões de planejamento das atividades são fáceis de localizar. É possível fazer até padronização por etiquetas coloridas, separadas por colunas ou assuntos, explica Luiz Gustavo.

Também é possível agendar atividades, funções e prazos de cada membro da equipe. Assim, fica bem mais fácil monitorar o que cada pessoa fez ou está fazendo na fazenda. O produtor rural pode usá-lo pelo computador ou por aplicativo de celular.

Prosseguindo, ele cita que se o produtor estiver à procura de um aplicativo específico para agricultura a solução pode ser o Aegro, outro programa gratuito para celular que permite o planejamento das operações agrícolas e que pode ser usado tanto pelo computador quanto por celulares Android e iOS.

FILTRAGEM DE DADOS (AGRICULTURA DE PRECISÃO) – Esse software é uma excelente escolha para usuários das ferramentas de Agricultura de Precisão (AP), pois, ele auxilia a filtragem de dados coletados em grandes quantidades, como nos mapas de colheita de grãos. Segundo o pesquisador, essa filtragem também leva em consideração valores dos vizinhos e não apenas os valores globais dos dados.

“Hoje, 100% das colhedoras modernas de grãos comercializadas no Brasil já vêm de fábrica com monitores de produtividade (placa de impacto, sensores de umidade, inclinômetro…) e, em alguns casos, o produtor rural necessita apenas da aquisição de um GPS para georreferenciamento dos pontos coletados” relata.

Luiz Gustavo ainda cita que o mapa de produtividade é o principal produto a ser analisado na utilização dos conceitos de AP nas fazendas e que a limpeza dos dados errôneos é um ponto crucial na interpretação desses mapas sendo necessário para tanto que seus dados sejam coletados com máquinas previamente calibradas.

OBTENÇÃO DE COORDENADAS – Outro aplicativo apontado por Luiz Gustavo é o C7 GPS Dados, considerado bem simples e que traz inúmeros benefícios no dia a dia da fazenda. Ele auxilia na obtenção de coordenadas de pontos isolados (waypoints) ou de trilhas e também possibilita o armazenamento dessas informações em um arquivo de texto GeoTXT.

“O app permite ainda a visualização gráfica da constelação de satélites rastreados e da intensidade do sinal recebido de cada um e, com os dados armazenados em arquivo, é possível realizar cálculos de área, perímetro de polígonos e distância total percorrida em uma trilha registrada” enfatiza no estudo.

Conduzindo o documento de forma bastante didática, o engenheiro agrônomo faz um questionamento: “Quem nunca se deparou com a realização e o planejamento de algum manejo para determinado talhão sem sequer conhecer a área, por exemplo?” e ele responde em seguida: “Com o C7 GPS Dados, é possível a ida ao campo com o smartphone em mãos, sem precisar de área de cobertura de internet. O sistema utiliza o posicionamento via satélites. Assim, pode-se calcular a área precisa da mancha ou do talhão que receberá um tratamento químico”.

Concluindo o tema, ele relata que o planejamento de litros do produto a ser preparado e/ou volume total de calda da bomba do pulverizador para aquele talhão fica bem mais simples. “Temos então o uso dos produtos de uma forma mais eficiente, pois serão preparados doses e volumes de calda específicos para aquela área, sem excedentes”.

GERENCIAMENTO DE VENDAS – Para aqueles produtores que comercializam seus produtos a terceiros, Luiz Gustavo cita o Agendor que considera uma ferramenta bastante útil. O software é uma plataforma de CRM (Customer Relationship Management ou Gerenciamento de Relacionamento com o Cliente) e gestão comercial. Ele funciona como um painel de controle e assistente pessoal para equipes de vendas, marketing e serviços de atendimento com foco no cliente.

O engenheiro explica que o aplicativo Agendor possui uma versão gratuita e outra paga (R$ 35,10 por usuário/mês) com mais ferramentas e funcionalidades e destaca que essa tecnologia no campo é útil para sugestões do que deve ser feito para evoluir nas negociações; disponibiliza informações sobre oportunidades e clientes (inclusive offline) e, entre outras, geolocaliza clientes no mapa para otimizar visitas comerciais e envio de lembretes de reuniões, ligações e outras atividades.