Corrente no WhatsApp usa dados errados para criticar impostos

Imposto: apesar de o texto trazer algumas variações, a corrente tenta provar que “o Brasil tem a maior carga tributária do mundo” (José Cruz/Agência Brasil/Agência Brasil)

Texto compartilhado em redes sociais baseia-se em números falsos ao defender que o Brasil tem a maior carga tributária do mundo

 

Por Patrícia Figueiredo

Agência Pública

Imposto: apesar de o texto trazer algumas variações, a corrente tenta provar que “o Brasil tem a maior carga tributária do mundo” (José Cruz/Agência Brasil/Agência Brasil)

Uma longa mensagem com críticas aos impostos cobrados no Brasil tem circulado pelo aplicativo WhatsApp e aparecido também em páginas no Facebook. Apesar de o texto trazer algumas variações, a corrente tenta provar que “o Brasil tem a maior carga tributária do mundo”.

Os 10 países onde MAIS se trabalhou em um ano para pagar impostos:

  1. Brasil: 2.600 horas (é mais que o dobro do 2º colocado!)
  2. Bolívia: 1.080 horas
  3. Vietnã: 941 horas
  4. Nigéria: 938 horas
  5. Venezuela: 864 horas
  6. Bielorrússia: 798 horas
  7. Chade: 732 horas
  8. Mauritânia: 696 horas
  9. Senegal: 666 horas
  10. Ucrânia: 657 horas

Fonte: Banco Mundial

“O Brasil tem a maior carga tributária do mundo, para pagar a MAIOR CORRUPÇÃO DO MUNDO”

Tributos no Brasil – uma vergonha!!!

Medicamentos 36%

Luz 45,81%

Telefone 47,87%

Gasolina 57,03%

Cigarro 81,68%

PRODUTOS ALIMENTÍCIOS BÁSICOS

Carne bovina 18,63%

Frango 17,91%

Peixe 18,02%

Sal 29,48%

Trigo 34,47%

Arroz 18,00%

Óleo de soja 37,18%

Farinha 34,47%

Feijão 18,00%

Açúcar 40,40%

Leite 33,63%

Café 36,52%

Macarrão 35,20%

Margarina 37,18%

Molho tomate 36,66%

Biscoito 38,50%

Chocolate 32,00%

Ovos 21,79%

Frutas 22,98%

Álcool 43,28%

Detergente 40,50%

Sabão em pó 42,27%

Desinfetante 37,84%

Água sanitária 37,84%

Esponja de aço 44,35%

PRODUTOS BÁSICOS DE HIGIENE

Sabonete 42%

Xampu 52,35%

Condicionador 47,01%

Desodorante 47,25%

Papel Higiênico 40,50%

Pasta de Dente 42,00%

MATERIAL ESCOLAR

Caneta 48,69%

Lápis 36,19%

Borracha 44,39%

Estojo 41,53%

Pastas plásticas 41,17%

Agenda 44,39%

Papel sulfite 38,97%

Livros 13,18%

Papel 38,97%

BEBIDAS

Refresco em pó 38,32%

Suco 37,84%

Água 45,11%

Cerveja 56,00%

Cachaça 83,07%

Refrigerante 47,00%

Sapatos 37,37%

Roupas 37,84%

Computador 38,00%

Telefone Celular 41,00%

Ventilador 43,16%

Liquidificador 43,64%

Refrigerador 47,06%

Microondas 56,99%

Tijolo 34,23%

Telha 34,47%

Móveis 37,56%

Tinta 45,77%

Casa popular 49,02%

Mensalidade Escolar 37,68% (ISS DE 5%)

 

ALÉM DESTES IMPOSTOS, VOCÊ PAGA

– DE 15% A 27,5% DO SEU SALÁRIO A TÍTULO DE IMPOSTO DE RENDA;

– PAGA O SEU PLANO DE SAÚDE,

– O COLÉGIO DOS SEUS FILHOS,

– IPVA,

– IPTU,

– INSS,

– FGTS

– ETC.

 

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Mensagem que circula pelo WhatsApp

 

O conteúdo lista as taxas supostamente cobradas em produtos diversos e também faz um ranking com os dez países onde mais se trabalharia para pagar tributos. Argumentos como esses têm servido para contestar o valor dos impostos no país, classificados como muito altos diante da qualidade dos serviços públicos oferecidos.

O Truco – projeto de checagem da Agência Pública – procurou a origem dos números citados, com o objetivo de analisar a veracidade da mensagem. A reportagem concluiu que a maioria dos dados está errada. Por isso, a corrente foi classificada como falsa.

A autoria do texto é desconhecida, ou seja, não é atribuída a nenhum tipo de grupo ou organização. O Banco Mundial, contudo, aparece como fonte de alguns dos números usados.

A reportagem entrou em contato com a sede do Banco Mundial no Brasil para verificar o envolvimento da organização com o ranking que inicia a corrente. A entidade afirma não ter lançado nenhum estudo específico sobre o tempo que uma pessoa gasta trabalhando para pagar seus impostos recentemente.

O Truco localizou, no entanto, um estudo da empresa de consultoria PwC feito em parceria com o Banco Mundial em 2015. Nesse documento aparece o dado de 2.600 horas trabalhadas para pagamento de impostos. No entanto, o número é relativo à quantidade de horas empregadas por uma empresa para o pagamento de tributos no ano de 2013.

Assim, o número não se refere às horas trabalhadas pelo cidadão para o pagamento de tributos, como sugere a corrente. Trata-se de uma estimativa do gasto anual das empresas com impostos.

Além disso, o ranking citado está desatualizado, uma vez que a PwC já divulgou a edição de 2016 do estudo. O Truco verificou o total de horas empregadas pelas empresas no pagamento de impostos nos dez países citados pela corrente, utilizando o relatório mais recente da PwC, publicado no ano passado e baseado em dados de 2014.

Dos dez números indicados na mensagem, apenas um está correto: o total de horas empregadas com tributos no Chade. Veja, nas tabelas a seguir, os números indicados pela corrente e os valores atualizados de acordo com o relatório.

Ranking original da mensagem – “Os 10 países onde MAIS se trabalhou em um ano para pagar impostos”

País     Total de horas           Posição

Brasil   2.600   1

Bolívia            1.080   2

Vietnã 941      3

Nigéria            938      4

Venezuela       864      5

Belarus            798      6

Chade 732      7

Mauritânia      696      8

Senegal           666      9

Ucrânia           657 10

Tabela segundo a PwC – Número de horas empregadas no pagamento de tributos por empresas no mundo

País     Total de horas Posição

Brasil   2600    1

Bolívia            1025    2

Vietnã 770      6

Nigéria            908      3

Venezuela       792      5

Belarus            176      Não consta nas 10 primeiras posições

Chade 732      8

Mauritânia      734      7

Senegal           620      10

Ucrânia           350      Não consta nas 10 primeiras posições

Outras acusações – A mensagem alega ainda que “o Brasil tem a maior carga tributária do mundo”. No entanto, a afirmação é falsa. De acordo com o mesmo relatório da PwC, a carga tributária para as empresas no Brasil fica em torno de 69,2% – esse porcentual representa o Índice Total de Impostos, dado calculado pelo estudo para cada país analisado.

O número é muito inferior ao adotado por países como a Argentina, com tributação de 137%, e Eritreia e Bolívia, com tributação de 83% cada.

Também é inferior ao da Colômbia, com 69,7%, e muito próximo da porcentagem de países europeus desenvolvidos, como a Itália, onde a taxa é de 64,8%, e da França, com 62,7%.

Portanto, o Brasil não é o país com a mais alta carga tributária do mundo, como afirma a mensagem. Na verdade, o país que tem a maior carga tributária do mundo é Comores, pequena república insular no Oceano Índico, onde a porcentagem é de 216%, segundo o estudo da PwC.

Também está errado dizer que a carga tributária serve para pagar “a maior corrupção do mundo”. De acordo com o Índice de Percepção de Corrupção de 2016, elaborado pela Transparência Internacional, o Brasil ocupa o 79º lugar entre 176 países.

Está localizado no meio do ranking, com 40 pontos, igualmente distante tanto dos primeiros como dos últimos colocados. No levantamento de 2015, o país somou 38 pontos e ocupou o 69º lugar (quanto menor a pontuação, maior é a corrupção percebida). Logo, o Brasil está longe de ser o país mais corrupto do mundo.

Outro trecho incorreto da corrente é o que alega que “de 15% a 27,5%” do salário do brasileiro é destinado ao Imposto de Renda. Na verdade, a menor faixa do IR no Brasil é de 7,5%.

Esta alíquota incide sobre rendimentos até R$ 2.826,65 mensais. Quem ganha menos do que isso está isento.

Logo depois, a mensagem informa ainda que o brasileiro se compromete com outras despesas como plano de saúde, mensalidade escolar, IPVA, IPTU, INSS e FGTS.

No entanto, essas contribuições são facultativas, vinculadas à propriedade de um bem, como imóvel ou veículo, ou pagas apenas por aqueles que contratam funcionários, o que demonstra outro erro.

 

Carga tributária dos produtos – Em outra parte, a mensagem compartilhada no WhatsApp lista diversos produtos e a carga tributária que incidiria sobre eles no Brasil. O Truco entrou em contato com o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) para verificar os números indicados na mensagem.

O instituto é reconhecido por estudar, desde sua criação, em 1992, o impacto dos tributos na atividade empresarial brasileira.

A tabela abaixo mostra a carga tributária de cada produto segundo a corrente de WhatsApp e o valor apurado pelo IBPT, atualizado em junho de 2017.

Dos 60 produtos incluídos na mensagem viral, nenhum estava com a porcentagem igual à indicada pelo instituto.

PRODUTO   CARGA TRIBUTÁRIA SEGUNDO A CORRENTE

E À FRENTE CARGA TRIBUTÁRIA SEGUNDO IBPT

Carne bovina  18,63%           17,47%

Frango 17,91%           16,80%

Peixe   18,02%           34,48%

Sal       29,48%           15,05%

Trigo   34,47%           17,34%

Arroz   18,00%           17,24%

Óleo de soja    37,18%           26,05%

Farinha            34,47%           17,34%

Feijão  18,00%           17,24%

Açúcar            40,40%           30,60%

Leite    33,63%           18,65%

Café    36,52%           19,98%

Macarrão         35,20%           16,30%

Margarina       37,18%           35,98%

Molho tomate 36,66%           36,05%

Biscoito          38,50%           37,30%

Chocolate       32,00%           38,60%

Ovos   21,79%           20,59%

Frutas  22,98%           21,78%

Álcool 43,28%           32,77%

Detergente      40,50%           30,37%

Sabão em pó   42,27%           40,80%

Desinfetante   37,84%           26,05%

Água sanitária 37,84%           26,05%

Esponja de aço           44,35%           40,62%

Sabonete         42%     37,09%

Xampu            52,35%           44,20%

Condicionador           47,01%           37,37%

Desodorante   47,25%           37,37%

Papel Higiênico          40,50%           39,94%

Pasta de Dente           42,00%           34,67%

Caneta 48,69%           47,49%

Lápis   36,19%           34,99%

Borracha         44,39%           43,19%

Estojo  41,53%           40,33%

Pastas plásticas           41,17%           40,09%

Agenda           44,39%           43,19%

Papel sulfite    38,97%           37,77%

Livros  13,18%           15,52%

Papel   38,97%           Não consta

Refresco em pó          38,32%           36,30%

Suco    37,84%           36,21%

Água   45,11%           45,55%

Cerveja           56,00%           55,60%

Cachaça          83,07%           81,87%

Refrigerante    47,00%           46,47%

Sapatos           37,37%           36,17%

Roupas            37,84%           34,67%

Computador   38,00%           33,62%

Telefone Celular         41,00%           39,80%

Ventilador      43,16%           34,30%

Liquidificador            43,64%           43,54%

Refrigerador   47,06%           36,98%

Microondas     56,99%           54,98%

Tijolo   34,23%           34,17%

Telha   34,47%           33,95%

Móveis            37,56%           Não consta

Tinta    45,77%           36,17%

Casa popular   49,02%           48,30%

Mensalidade Escolar  37,68%           26,32%

Fonte: IBPT

Apesar de nenhum dos dados de carga tributária indicados pela corrente estar correto, de acordo com os últimos levantamentos do IBPT, muitos deles chegam perto dos indicados pelo instituto, o que demonstra que a origem da corrente pode ser um compilado de dados desatualizados.

Dois produtos genéricos citados na corrente, papel e móveis, não constam na apuração do IBPT.

Conclusão – Não foi possível localizar a origem de todos os dados indicados na mensagem que se espalhou pelo WhatsApp. No entanto, fontes como PwC e IBPT mostram erros nos números citados na corrente.

Além disso, a mensagem inclui informações incorretas acerca do Imposto de Renda, da carga tributária brasileira e do nível de corrupção em relação a outros países do mundo.

Diante das evidências encontradas pelo Truco, a corrente foi classificada como falsa, já que a análise dos dados e de outras fontes comprova diversos erros do texto.

 

(WhatsApp/Reprodução)

*Este conteúdo foi publicado originalmente no site da Agência Pública.